jusbrasil.com.br
18 de Setembro de 2019

Como escolher entre atropelar uma garotinha e salvar um trem lotado?

Um estudo dirigido sobre o pensamento utilitarista.

Matheus Galvão, Advogado
Publicado por Matheus Galvão
há 5 anos

Rob está no controle de um trem. É o maquinista mais conhecido de toda a Europa por sua dedicação e pelo excelente tratamento dispensado aos seus passageiros. Trinta anos de experiência, nenhum acidente registrado.

Como escolher entre atropelar uma garotinha e salvar um trem lotado

Agora ele se encontra em uma situação difícil. Enquanto cruza uma zona perigosa e montanhosa, vê uma criança sentada nos trilhos a poucos metros de distância sem esboçar nenhum movimento de retirada. Com a velocidade que está conduzindo é possível parar, porém sem a certeza de sobrevivência da garotinha. Há, ainda, o risco de que a frenagem seja tão brusca que o trem despenque montanha abaixo.

O que ele escolhe? Salva a garotinha ou os passageiros?

Rob poderia fazer um cálculo, recorrendo mais ou menos à concepção utilitarista de justiça. Em uma frase, os defensores desta concepção defendiam "o máximo de felicidade para o maior número de pessoas".

A esta altura, então, a garotinha já era, não?

Vamos colocar um pouco mais de emoção na história. E se a garotinha fosse a filha de Rob?

As coisas começam a complicar. Mas podemos melhorar (ou piorar!): no trem há cientistas que carregam uma descoberta revolucionária que pode mudar os rumos da sobrevivência humana e salvá-la de uma epidemia mortal. Agora não se trata mais de passageiros ou da filha, mas da Humanidade.

E então?

Um utilitarista certamente preferiria a Humanidade, isto porque maximizaria a felicidade de um maior número de pessoas. Mas será que as melhores decisões envolvem uma frieza dessa magnitude? Ninguém conseguiria responder, sob pressão, se preferiria - como uma regra moral - preservar a Humanidade a salvar um filho. Ou será que conseguiria?

O que interessa é que, para os utilitaristas, a busca do bem-estar geral ou da utilidade deve ser feita de forma imparcial, para todos da sociedade (ver KIMLICKA, Will, Utilitarismo, in. Filosofia Contemporânea, 2006, p. 11-62).

Além disso, uma das características do pensamento utilitário é o consequencialismo. Para saber se algo é moralmente errado é necessário apontar quem é prejudicado com certa medida. Por outro lado, só é boa uma coisa que melhore a vida de alguém.

Segundo Kimlicka, o utilitarismo pode ser dividido em duas partes:

  1. Descrição do bem-estar humano ou "utilidade", e
  2. Uma instrução para maximizar a utilidade, assim definida, dando igual peso à utilidade de cada pessoa.

Se combinarmos a segunda parte com diversos tipos de respostas teremos um panorama do que seja o utilitarismo. Um julgamento conclusivo sobre o utilitarismo depende, entretanto, da resposta à segunda parte, que só pode ser alcançada respondendo a questão 1: o que pode ser utilidade?

31 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Um grande livro sobre o tema é "Justiça - o que é fazer a coisa certa" de Michal Sandel.
Na obra, o autor levanta diversos aspectos morais - além do caso do maquinista - a serem debatidos, como aborto, porte de armas, alistamento militar, entre outros.
E o mais interessante é que não precisa ser jurista para ler o livro.
Parabéns ao autor pela iniciativa. continuar lendo

Michel Sandel é um autor e tanto. Comunitarista ferenho tem ideias bastante interessantes e transmite de maneira clara e objetiva ideias tão complexas como os temas de teoria da justiça. Abraço, Fernando e obrigado pelo comentário! continuar lendo

Assisti as palestras do Michael Sandel disponíveis no iTunes U. Achei tão boas que resolvi ler os livros "Justiça - o que é fazer a coisa certa" e "O que o dinheiro não compra". continuar lendo

A menina não deveria estar nos trilhos. Eu diminuiria na medida que a segurança permitisse e tacaria a mão na buzina. Mais que isso é irracional. continuar lendo

"A menina não deveria estar nos trilhos. Eu diminuiria na medida que a segurança permitisse e tacaria a mão na buzina." Uma boa alternativa talvez.
"Mais que isso é irracional." Não diria irracional. Não é tão simples não levar os sentimentos em conta (se fosse, tua filha, por exemplo - aliás, mesmo que não fosse). Além disso, "...a medida que a segurança permitisse": até que ponto seria isso? Uma freada brusca possivelmente tendo feridos no trem ou o mais suave possível (dando assim menos chances à criança)? continuar lendo

Na medida com margem de seurança em que os trilhos aguentassem a freada, pois a tendência é eles entortarem, desalinhando e provocando descarrilhamento. Aí sim, provocando muitas mortes. continuar lendo

Excelente texto, Matheus! Ansioso para as próximas partes. continuar lendo

Se há uma possibilidade de que o trem freie a tempo para salvar a criança e não descarrilhe, talvez o mais justo seja "apostar" (confiar) nesta possibilidade. Se ninguém se salvar, tragédia por tragédia, ao menos você tentou salvá-los. continuar lendo

Sim, Leo. Na segunda parte vamos falar um pouco sobre as diversas concepções de utilidade, que inclui a utilidade de preferências. Até lá! continuar lendo

Essa lógica é a apresentada no filme Eu, Robô. O protagonista não gosta dos robôs, por que quando ele e uma menininha sofreu um acidente um robô calculou a possibilidade de sobrevivência de ambos, e decidiu salvá-lo. Aí é que fica a questão, o texto menciona que a chance de sobrevivência dela, mesmo diminuindo a velocidade é incerta, e que a tentativa de salvamento da menina coloca em xeque a vida de todos os presentes no trem. Não acho que valha a pena arriscar a vida de 300 ou mais pessoas por causa de uma. O texto tenta colocar a nossa emoção a frente da razão, e se no lugar estivesse um adulto, ninguém tentaria salvar o adulto. continuar lendo