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14 de Outubro de 2019

"Novo" Código de Ética é fábrica de advogados empregados e audiencistas

Se as alternativas para captar clientes são todas restritas, o que resta fazer? A quem isto serve?

Matheus Galvão, Advogado
Publicado por Matheus Galvão
há 4 anos

Novo Cdigo de tica fbrica de advogados empregados e audiencistas

Não seria de se espantar se o "novo" Código de Ética proibisse o uso de terno, afinal caminhar na rua vestido assim pode fazer com que algum advogado seja identificado e acabe fazendo uma captação de clientes.

Exageros à parte, o Código que sai hoje no Diário Oficial é quase categórico em cortar as asas dos advogados que queiram advogar por conta própria. Os avanços na advocacia renovada não são acompanhados pela OAB.

"Discrição, moderação"... Os dispositivos quase pedem para que advogados trabalhem em sigilo... Ou pior, induzem o advogado iniciante a ser empregado encarando situações do tipo ganhar R$ 500,00 por mês, como publicaram ontem aqui no JusBrasil (Leia o artigo) ou a se entregar à pratica "audiencista" (que para mim é a clara prova de que a advocacia já se mercantilizou há muito tempo).

Se as formas de "captar clientes" são restritas como as pessoas podem encontrar advogados competentes? A internet, uma excelente ferramenta para o "pequeno advogado" construir relações, fazer contatos, demonstrar suas qualificações e apresentar confiança foi uma mera passagem muito obscura. As coisas ainda não estão claras, são faladas entre os dentes ou guardadas para poucos, o que leva ao medo de ganhar com novas alternativas.

E como não falar nos "audiencistas" que por não terem alternativas para captar clientes se vendem por pouco aos escritórios? Aqui em Salvador, a coisa está feia. Um dia desses, na Justiça do Trabalho, vi uma advogada com um envelope com o ícone de um grande escritório e perguntei se ela estava trabalhando lá. "Não, só faço audiências". Redução de custos, é como se chama. O escritório é de um Conselheiro Federal, diga-se de passagem.

A quem serve isso? Óbvio que quem sai ganhando são os grandes escritórios, aqueles que têm lobby dentro da OAB nesses Conselhos da vida.

"Data venia", a advocacia já se mercantilizou, o Código de Ética é como aquela esposa com quem se casa para manter as aparências e privilégios que poucos (nos lugares certos) estão tendo. Mas para os "peixes pequenos", meus caros, nós morremos afogados tentando o reconhecimento em um mercado anacrônico onde novas possibilidades de criar são limadas por quem tem o poder na mão.

Ler esse "novo" Código de Ética é uma atividade para se fazer em mesas de bar (data máxima vênia). É de rir com os amigos e chorar a morte das possibilidades perdidas na hora de renovar. Quem esperar para ver a advocacia ficar viável e moderna morrerá de velho, mas, parece, ainda haver luz no fim do túnel.

75 Comentários

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É, de fato, lamentável o que a OAB dá de presente a sua classe neste dia!
Onde trabalho atualmente, foi-me solicitado que fizesse a contratação de advogado para audiência! É algo impressionante, para não dizer triste!
Eles enviam até e-mail com sua cotação, tabela com valores para cada tipo de diligência! Estão errados? Não acho. Acredito que quem tem culpa nisso é a própria OAB que acredita estar num mundo matrix, em que só ela está do outro lado, mas seus advogados estão aqui, no mundo real, em meio ao capitalismo e mercado cada vez mais competitivo.
Resultado de toda essa palhaçada que é esse novo texto do Código: Sobra regras e falta fiscalização, haja vista advogados que estão na TV e que, a pretexto de defender consumidores em quadro de programa matinal, divulgam seus escritórios em rede nacional. Ora, não é vedado? Alguém faz algo sobre isso? Por que a OAB faz vista grossa para irregularidades que ela mesma positivou?
Ótimo seu texto, meu amigo, como sempre. continuar lendo

Oi, André. Pois é, a questão é que são dois pesos e duas medidas e quem sai perdendo? A gente que ainda está nadando nesse oceano vermelho. =] continuar lendo

Não só propaganda na TV, aqui mesmo temos alguns artigos, em que em comentários nada tendenciosos se coloca o número de telefone e e-mail do advogado, mas se faz denuncia e não tiram do ar.

Mas o maior problema é esse, é se manter a estrutura atual para os grandes escritórios de massa continuarem grandes, e os novos advogados terem que trabalhar por migalhas (mera coincidência ter um site de correspondentes com este nome) de carteiras e em escritórios que ganham milhões por ano.

E a OAB se mantem assim, até porque, quem da alta cúpula da OAB não está em grandes escritórios. continuar lendo

Renato Campos, nunca me toquei no nome migalhas... coincidência ou não quando assinei por um tempo realmente foi muito baixo o valor :(isso porque sou estagiária :( continuar lendo

Tenho pena dos acadêmicos de Direito que conheço, incluindo os que ingressam agora no curso e também os que estão se formando; mal sabem o que os aguarda aqui fora.
Ser advogado autônomo tem sido uma decepção. Por mais de ano busquei vaga em escritórios de minha cidade e, em 90% deles, recebi a mesma orientação: "Envia um currículo por email e, se aparecer uma oportunidade, marcamos uma entrevista" . Tive de fazer um esforço econômico-familiar gigantesco para abrir meu pequeno local de trabalho.
Os 10% restantes? Jamais retornaram meu contato.
É engraçado. O Código de Ética veda que se cobre abaixo da tabela, mas agasalha a advocacia pro bono. Melhor ainda: entende-se que os honorários ostentam caráter alimentar, mas sequer posso anunciar meus serviços com liberdade; quer a OAB que seus inscritos (os pequenos e, muitas vezes, atuantes solitários) morram de fome?
Previ esses dias a meu irmão que, em cinco anos, ninguém mais advogará. Renovo a previsão aqui, com um adendo: não precisará esperar tudo isso, antes do prazo já não haverá tantos entusiastas da profissão.
Amo o que faço, sou verdadeiramente apaixonado pelo Direito, mas pretendo cumprir o lapso exigido como prática jurídica e me dedicar a um concurso. Pobres daqueles que, no primeiro semestre de faculdade, alardeiam que "farão justiça", mudarão o mundo ou coisa do tipo. Quebrarão a cara. Vejo amigos que estão na academia e ainda acalentam o sonho dourado do Direito. Desgastei o meu, dia a dia a pós me formar.
A cereja do bolo, agora, seria a supressão do Exame de Ordem. Aí, sim, irei vender picolés na praia. continuar lendo

Bem observado, caro colega. A situação é mesmo ruim, a maioria sem poder trabalhar dignamente. O que mais dizer? continuar lendo

Empregado ainda está bom, na verdade será associado, trabalhando subordinado ao escritório sem direito trabalhista algum. continuar lendo

Ainda tem essa, Rafael... continuar lendo

Normas injustas devem ser desobedecidas. Pensando friamente, de nada servem. Os conselheiros das OAB's sabem bem disso, pois seus escritórios contratam até empresas que prestam serviços de apoio jurídico que não são escritórios de advocacia.

Daqui a pouco aparecerá algum cão raivoso torcedor de OAB para vociferar contra a verdade que teima em não enxergar. continuar lendo

Pois é. A gente só não pode se calar diante disso. continuar lendo

Sim, caro colega. Digamos que nosso Código Moral não seja seguido por eles, mas é o que tem vigência por saberem que é isso que nos aprisiona e faz com que fiquemos engessados.

O que se deve fazer é isso: desobedecer. Nossa moral não pode ser a razão de nossa ruína.

Passei a entender um pouco essa lógica depois que li "A Revolta de Atlas". Caso não tenha lido, recomendo e afirmo que não se arrependerá. Caso tenha lido, certamente tem enxergado as lamentáveis semelhanças e isso talvez tenha dado a clareza de sua exposição de ideias.

Grande abraço. continuar lendo

Irei comprar esse livro.. já ouvi falar muito, principalmente no meio liberal.. de Ayn Rand. continuar lendo

Exatamente, meu caro, além de que a OAB não fica vigiando ninguém...quantas propagandas de advogados já vi na internet, ou até mesmo no Facebook?
E "A Revolta de Atlas" é um dos melhores livros que já li, simplesmente demais, nos faz ter outra visão do mundo. continuar lendo