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24 de Maio de 2018

Eu respondo dúvidas jurídicas, qual o problema?

Informar o cidadão sobre seus direitos e deveres é um dever. Como isso reflete positivamente na advocacia?

Matheus Galvão, Advogado
Publicado por Matheus Galvão
mês passado

Para muitos profissionais da advocacia é difícil entender por que uma pessoa - mesmo sem ter de fato uma doença - paga por uma consulta médica sem pestanejar, mas resiste em pagar uma consulta jurídica.

O resultado de uma consulta com advogado é o mesmo de uma consulta médica: apresenta soluções estratégicas que se aplicam a um problema concreto que o cliente tem. E todo profissional precisa ser remunerado por isso. No caso do médico, um paciente que se recusa a se submeter a um tratamento prescrito não vai deixar de pagar pela consulta.

A pergunta que fica é: por que clientes não valorizam a consulta com um profissional do direito, mais precisamente o advogado?

Nem toda dúvida é uma consulta

Normalmente quem vai ao médico sabe que precisa dele. Sente uma dor ou, mesmo que não sinta nada, quer fazer uma revisão e se certificar de que não tem uma doença (por razões genéticas ou epidêmicas, por exemplo). Acontece que ela tem informações prévias sobre o que pode ser o problema e quem deve procurar.

Partindo desse pressuposto, há uma diferença entre sanar uma dúvida e fazer uma consulta.

Um médico, contador, advogado, nutricionista ou psicólogo é convidado para ir a um programa de televisão e responder perguntas enviadas pelo público. Para você, isso é consulta?

Tempo...

Acredito que o cidadão-médio concorde que não, isso não é consulta. É informação, ele está sanando uma dúvida.

Dúvida pressupõe uma deficiência de informação. Sem acesso a um conhecimento prévio ou uma percepção concreta, uma pessoa não tem consciência de um problema e está impossibilitada de tomar uma decisão.

Para facilitar o entendimento, eu vou considerar que a percepção de um problema pode aparecer de duas formas diferentes:

  • Objetiva/empírica. Está mais ligada às áreas de saúde ou físicas. Eu sei quando tenho uma dor, quanto tenho uma tosse com catarro ou seca. Sei o sintoma (problema), sei que posso ter alguma doença, então vou ao médico com essa informação empírica (dada pela experiência). A mesma lógica se aplica quando o encanamento quebrou. Eu sei que preciso de um encanador.

  • Subjetiva/informacional. em áreas mais abstratas como o direito, por exemplo, eu nem sempre sei que tenho um problema e como posso resolvê-lo. Eu preciso descobrir se isso é realmente uma questão e qual o profissional habilitado para resolvê-la (ex.: abri uma empresa e preciso regularizar questões fiscais, como proceder? qual o profissional mais indicado: contador ou advogado?).

Consulta está no nível estratégico, é o primeiro passo para a solução de um problema. Quando eu vou ao médico eu não faço perguntas superficiais e genéricas como "o que é tuberculose?". Apresento um sintoma e quero saber o que o está causando e como saná-lo. Sei que o médico é o profissional adequado e ele dará toda a orientação, pedirá exames, receitará um tratamento. Ainda que seja uma consulta de check-up, depende dele a requisição técnica e o acesso às informações. Ainda que eu não aceite o diagnóstico, a consulta será paga.

Vamos dar exemplos:

Saúde

  • Problema: Tosse com secreção, o que isso pode ser? Isso é grave?

  • Informação (alternativas e possibilidades): Tosse com catarro é um dos sintomas da pneumonia. O médico é o profissional adequado para diagnosticar e tratar.

  • Solução: Uma consulta para diagnóstico e tratamento.

Direito

  • Problema: Cedi a laje da minha casa para o vizinho construir, o que devo fazer para regularizar?

  • Informação: O proprietário pode conceder a o direito de superfície do seu terreno por meio de escritura pública registrada no cartório de registro de imóveis.

  • Solução: Dirigir-se ao cartório para fazer a escritura pública ou consultar um advogado (ou Defensoria Pública) antes, caso sinta a necessidade de um contrato específico para ter mais segurança.

Direito (outro exemplo)

  • Problema: Estou montando um negócio com mais dois amigos. Como posso manter isso de forma segura?
  • Informação: É imprescindível a redação e registro de um Contrato social. Um advogado especialista em Direito de Empresa é o profissional adequado para estruturar e redigir este instrumento.
  • Solução: Consulta e contratação de um advogado para redigir o contrato da melhor maneira.

Você deve notar que as áreas mais quentes e movimentadas do direito são Direito de Família (divórcio, pensão...), Direito do Consumidor (negativação indevida, atraso na entrega do produto...) e Direito do Trabalho (reclamação trabalhista, FGTS, férias, assédio...). Coincidência? Não. Informação acessível: além de sempre existir alguém conhecido que passou pela mesma situação, há sempre alguém na televisão falando sobre esses temas.

Como as pessoas tiram dúvidas?

Acessando informação útil. Simples assim. É por isso que existem programas de televisão sobre saúde, que há campanhas de conscientização sobre epidemias, distribuição de panfletos informativos sobre doenças e etc.

Um médico convidado para participar de um programa de televisão não está fazendo uma consulta, está tirando uma dúvida (levando informação) e tem uma recompensa muito boa por isso: visibilidade. Ele está construindo autoridade em sua área de atuação.

No mundo jurídico são raras ações de informação. Alguns advogados aparecem na TV e sempre tratando dos mesmos problemas.

Quando falamos em internet, um dos principais meios usados para encontrar e contratar um advogado atualmente, é impressionante a falta de conteúdo informativo de qualidade produzido por profissionais do direito.

Para deixar mais claro, vamos voltar aos problemas de saúde… Se eu pesquiso no Google, por exemplo, o termo “tosse com catarro” (eu sei, é nojento!) olha o que aparece como resultado:

Por favor, abra qualquer um desses artigos. Veja a profundidade de cada um deles. Você considera que isso vai substituir a necessidade de um médico? Acho que não.

Agora veja. Quando eu, tendo uma tosse com catarro, descubro que o que posso ter é uma pneumonia e pesquiso “pneumonia” no Google, aparece o seguinte, ao lado dos resultados:

       

E o primeiro link é: Pneumonia: sintomas, formas de tratamento e diagnóstico

Uma pergunta. Você já viu alguma dessas caixas informativas com conteúdo jurídico? Por que não há tantas publicações jurídicas completas e didáticas como esse primeiro link do resultado da pesquisa?

Falta empatia, falta informação

Sim. Falta empatia na produção de conteúdo jurídico. Empatia é a capacidade de sentir o problema de outra pessoa na pele.

Estou há 4 anos lidando com informação jurídica e posso falar sem medo de errar: é raro encontrar boas publicações de direito.

Profissionais do direito não escrevem de forma amigável porque dificilmente se colocam no lugar de quem realmente tem um problema. Há uma cultura de escrita impregnada com jargões e tecnicismos. Isso funciona para se destacar na academia ou nos círculos profissionais, mas ao escrever pensando em informar leitores é preciso muito mais. É preciso ter objetividade.

Uma publicação empática tem alto potencial porque informa o leitor e satisfaz sua necessidade. Quanto melhor e mais claro, mais um conteúdo é acessado e lido.

Veja esses exemplos:

Essas duas publicações tiveram como ponto de partida dúvidas reais. O primeiro resolve o problema de quem desconhece o procedimento de divórcio. O segundo responde a uma dúvida sobre a diferença entre termos do direito tributário, muitas vezes usados como sinônimos.

Assim como os artigos médicos que mostrei antes, eles tocam problemas específicos e são objetivos. Usam a linguagem adequada para os seus públicos e, muito importante, não abusam de autopromoção e propaganda intrusiva.

Ao escrever, precisamos guardar esta regra: sempre pense na persona que vai ler e quais dores ela tem. E isso vale para artigos escritos por advogados para advogados também.

Assim como aquele artigo da pneumonia, devemos nos aprofundar no assunto o suficiente para atingir o objetivo proposto. Lembrando o seguinte: profundidade não é tamanho, é o nível adequado de informação para que um objetivo seja alcançado, respondendo-se a tópicos específicos.

No caso da pneumonia, os tópicos escolhidos foram:

  • Sintomas

  • Causas

  • Tratamento

  • Complicações

  • Diagnósticos

Caso o assunto de uma publicação fosse divórcio, os principais pontos a serem abordados seriam, por exemplo:

  • Custo

  • Tipos

  • Onde fazer

  • Documentos necessários

O importante é: partimos de um problema, dividimos em tópicos e sub-questões e respondemos uma delas de cada vez.

Se a informação jurídica produzida pelos milhões de advogados seguissem esses princípios e estivessem bem estruturadas, poderíamos ter mais pessoas informadas, além de uma "caixa informativa" do Google para cada problema jurídico, por exemplo.

Como difundir informação jurídica relevante reflete na vida do advogado?

  • Clientes melhores, seguros e decididos: hoje, há pouca informação relevante e acessível sobre direitos. Pessoas informadas têm mais segurança no momento de adquirir um produto ou contratar um serviço. Quanto mais difusão de informação sobre problemas, como e com quem resolvê-los, mais pessoas se sentirão seguras para decidir contratar um advogado.

  • Revitalização da imagem e a confiança na advocacia: advogados têm estigma de mercenários. Muito desse estigma vem da mentalidade de que eles fazem tudo por dinheiro. Ao difundir informação útil e relevante, as pessoas passam a dar mais credibilidade à classe e ao seu papel social.

  • Estabelecimento de autoridade profissional: publicar artigos informativos, além de não ferir o Código de Ética da OAB, educa as pessoas e é uma ótima estratégia de marketing. A sua imagem se destaca ao passar autoridade em um assunto ou área de atuação.

  • Superação das barreiras geográficas: considerando que uma publicação relevante poderá aparecer entre os principais resultados do Google e atingir milhares ou milhões de leitores, não há limites geográficos para alguém conhecer o seu trabalho. O céu é o limite.

Eu me deparo diariamente com comentários do tipo: "advogado não é pedagogo da sociedade", "quer tirar dúvida de graça? então vá pra Defensoria ou procure na internet", a"lei está aí, de graça para todos". Esse tipo de afirmação, além de passar uma imagem de antipáticos e mercenários para os advogados, tem alguns problemas.

Primeiro, Defensoria é um serviço público; nós, cidadãos, remuneramos os defensores, eles não trabalham de graça e é um desrespeito afirmar isso. Segundo, como é possível encontrar informação útil na internet se não produzimos conteúdo de qualidade? Terceiro, a lei não basta, ela é complexa e usa linguagem distante da realidade da maior parte da população.

Concluindo

Os “consumidores” estão mais exigentes. O trecho de uma matéria do Transformação Digital traduz muito bem isso:

“O consumidor não está minimamente disposto a gastar tempo com narrativas descontextualizadas da sua necessidade imediata — nunca esteve, mas muito menos agora. Por isso, é preciso garantir acesso fácil ao que ele deseja no momento certo e independentemente do canal usado.”

Talvez você, no seu dia a dia, encare um número alto de "dúvidas" e fique se perguntando por que elas nunca passam disso. A resposta é que sem informação é muito difícil tomar uma decisão. É frustrante para qualquer profissional atender pessoas que não conhecem a dimensão de seu problema e que desvalorizam as estratégias e alternativas de solução apresentadas. Acredito que todos queremos o cliente maduro, informado o suficiente para tomar uma decisão, afinal, nosso tempo é precioso. Por isso investir em informação de qualidade, por qualquer meio, não deve ser coibido.

Quanto mais acesso à informação de qualidade os cidadãos tiverem, mais eles terão consciência de seus problemas e de como é trabalhoso resolvê-lo. O profissional inteligente usa o seu conhecimento para difundir conteúdo relevante e aproveitar para construir sua autoridade.

Quem valoriza a si como profissional, seu tempo e seu trabalho não guarda segredos.

>>> Quero ajudar a difundir informação jurídica de alto impacto.

55 Comentários

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Nossaaaa, um show de texto!
Parabéns Matheus - com tantos bons argumentos é difícil não se convencer de que a sociedade realmente precisa (e merece) mais informação, não juridiquês e enrolação.

Tenho uns poucos textos desse estilo que você falou (explicando o instituto de forma didática e apresentando soluções "concretas"); infelizmente a visibilidade deles não foram tão grandes assim (rsrsrs); no entanto, continuo acreditando que você tem razão sobre a relevância e utilidade dos artigos; quem dera todos eles fossem escritos dessa forma aqui na comunidade.

Olha só os meus: rsrs

* "Sou estrangeiro, que documentos necessito para me casar com brasileiro (a)"? 796 visualiz.
* "Abandono afetivo, pode ou não gerar indenização?" 1.402 visualiz
* "Comoriência, você sabe o que é?" APENAS 192 visualizações

Lamentavelmente as pessoas aqui querem mais visibilidade e fama do que ser útil para o próximo! ....; RECONHEÇO que estou quase me incluindo nesse equívoco (procurarei ser mais didática, agregar mais valor e ser útil para quem procura soluções aqui, nas próximas publicações).

Abraço e sucesso para ti - bom dia e boa semana continuar lendo

Oi, @diariodeconteudojuridico tudo bom?

Bem, existe uma estrutura para que um texto tenha relevância. Normalmente os textos com mais visualizações são de dois tipos: ou é um texto viral (as pessoas compartilham muito) ou é um texto tão informativo e tão bem estruturado que aparece entre as primeiras posições do google.

Acho que você vai concordar comigo que "comoriência" não é um termo tão popular. Talvez poucas pessoas pesquisem sobre isso e a maior parte delas são do meio acadêmico. Não é que o seu assunto não seja relevante - toda informação bem produzida é - mas ele não é tão pesquisado.

Uma hipótese a se testar é abordar um problema real - alguma aplicação prática - da comoriência e apresentar explicações para isso. Outra é usar uma linguagem mais amigável, pensar realmente em falar com o público que pretendemos atingir. E o mais importante: estruturar o texto em seções e usar palavras-chaves adequadas.

Como você disse, não precisamos focar em aparecer, na fama. Se nos dedicarmos a ter mais empatia e nos esforçarmos para entender as dores do nosso público as coisas acontecem naturalmente. Só a prática e um trabalho colaborativo pode ajudar a melhorarmos.

Um abraço! continuar lendo

@galvomatheus obrigada pela dica do comentário.

Realmente, você tem razão (ainda sou meio "crua" em SEO), a palavra Comoriência é só do meio Acadêmico, poucas pessoas fora da área saberiam; fica mesmo difícil chegar nos "primeiros" na pesquisa do google.
Abraço continuar lendo

Muito lindo o texto.
Quero ver se o autor mantém a mesma opinião depois que 1... 2... 10... 20 folgados aparecerem no escritório apenas para "tirar uma dúvida" e tomarem 1 hora de seu tempo para, depois, contratarem outro advogado para fazer exatamente o que você esclareceu...
Tempo é dinheiro e o meu é valioso.
Se quiser que eu pare de fazer o que é importante para mim, como atender aos meus clientes pagantes, ler uma obra jurídica, me manter atualizado com a jurisprudência atual ou mesmo gastar meu tempo com a minha família, pague.

Eu acho é uma tremenda falta de respeito para com meus clientes pagantes, deixar de estudar, pesquisar ou me aprimorar para ser um profissional melhor para resolver o problema que eles me contrataram para resolver para ficar "tirando dúvidas" de graça. continuar lendo

Doutor!!!Perfeita colocação!Concordo plenamente com você, o tempo é valioso!Temos que nos valorizar!!! continuar lendo

o autor fala tirar uma dúvida, não atendimento gratuito. continuar lendo

@advitamar não entendeu muito bem o texto.
Aposto que está perdendo muito tempo lendo suas importantíssimas obras literárias e se mantendo atualizado com a jurisprudência atual.
Tente de novo. Não vou explicar porque o texto já diz tudo. continuar lendo

Vixi, nem este espaço está livre da "turma do lacre"?!?!?!?!
Meu caro Cristiano, se não gostou do meu comentário, é só passar reto, não precisa perder o vosso precioso tempo respondendo.
Como eu disse, tempo é dinheiro.
O meu tempo é valioso.
O teu tempo também é, então, não o perca com um mentecapto como eu... continuar lendo

Itamar, a leitura do texto fala mais do que a leitura apenas do título. Acho que foi isso que o Cristiano quis dizer. continuar lendo

O tempo que dedicou a fazer esta crítica gratuita poderia ter sido usado para escrever um artigo gratuito que sanaria as dúvidas dos folgados (e de quebra ajudaria alguns que realmente precisam). :D continuar lendo

@galvomatheus e você acha que não li o texto só porque discordei da tua opinião?

@rhsrhoden o tempo é meu e dedico ao que eu quiser, seja para escrever uma crítica gratuita, seja para escrever um artigo jurídico, seja para ficar de papo para o ar fazendo absolutamente nada... continuar lendo

@advitamar não leve a mal. Mas já que você não entendeu vou explicar.
O texto fala que se os digníssimos advogados difundissem a informação em vez de esconder ela pra tentar vender depois, não haveria a necessidade de aturar 1... 2... 10... 20 folgados aparecendo no escritório apenas pra "tirar dúvidas".
Leia uma terceira vez, uma hora vai :D continuar lendo

Parabéns pelo artigo Matheus. O problema é que a informação ou dúvida nunca fica na primeira pergunta. O que o "cliente" quer é solução completa, diagnóstico do problema e resolução. Isso ingressa na esfera da consulta, pior, alguns ficam fazendo um embate entre o que um disse e o outro, as vezes serve para buscar a redução de preços. Nada mais! continuar lendo

Olá Matheus!

Sou assim, idealista como vc.
Elaborei muitas palestras informativas para ministrar gratuitamente. Pedi apenas o espaço e infraestrutura para receber as pessoas. Bolei uma palestra cujo tema falava de prevenção a fraudes para o público idoso. Enviei para secretaria do idoso no meu município, enviei para algumas empresas que atendem o público idoso e ninguém se interessou.
Foi então que percebi que o que há é apenas o interesse das pessoas em seu mundinho privado. Não existe o lance da simbiose, do pensar abrangente e global.
Reter informação e conhecimento é um gesto egoísta, não pagar uma consulta com um advogado também é.
Já atendi muita gente gratuitamente e que após duas semanas estavam gastando na Disney.

Em tese é lindo, mas existe aí um "caminho do meio" que deve ser considerado.

Abraço p vc. Parabéns pelo texto.

Penso em fazer pelo todo, em ser alguém a construir uma sociedade melhor. continuar lendo