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19 de Agosto de 2019

Quem diz a verdade: seu político de estimação ou a mídia?

Um guia para a era das informações duvidosas.

Matheus Galvão, Advogado
Publicado por Matheus Galvão
há 7 meses

A democracia 2.0 em crise

Quem diria que um dia o presidente do Brasil seria descoladão a ponto de usar as redes sociais para compartilhar pensamentos, informações oficiais (ou oficiosas), ordens para seus governados e doses de zoeira?

Não é só ele; todo mundo - inclusive seus opositores - tem seu próprio parlatório virtual. Pode divulgar e falar o que bem entender, o que tem criado um grande mal entendido. Ninguém sabe mais em quem ou no que acreditar. Quem paga o pato é a imprensa - o quarto poder -, que tem enfrentado uma onda de desconfiança e descrédito. Um baita perigo.

A imprensa bloqueada

No Twitter, rede social preferida do presidente, de seus conselheiros e seguidores, proliferam acusações e publicações diminuindo a mídia, tratando-a como “inimiga do Brasil”. Esse é o mantra repetido na página dedicada aos pensamentos do escritor e blogueiro Olavo de Carvalho.

Carlos Bolsonaro, filho do presidente, repostou, no último final de semana, uma publicação em que vários jornalistas eram associados a valores exorbitantes que, supostamente, receberam durante os governos do PT. Podia até não ser a intenção, mas a reação do público nos comentários era de total descrença na imprensa. A postagem original foi excluída, algumas horas depois.

O próprio Jair Bolsonaro declarou guerra ao site jornalístico The Intercept Brasil e bloqueou, no Twitter, um grupo de jornalistas associados ao site, acusando-os de disseminar mentiras. Eles não podem mais ler as publicações do presidente.

>> Saiba se o bloqueio de jornalistas pelo presidente é inconstitucional.

Posicionamento editorial é um problema?

Logo que foi tomando posse, o Bolsonaro tratou de reafirmar o discurso de sua campanha. Declarou guerra ao “pensamento de esquerda” e tem enquadrado todos os que são críticos do governo nesse grupo. A ideia é fazer a limpa da ideologia “perigosa”, o que vai levar, consequentemente, à substituição pela “ideologia oficial” e “correta”.

Tanto juízes, quanto jornalistas trabalham com fatos. Nunca acreditei que fossem imparciais. Acredito que eles persigam a imparcialidade, mas ninguém consegue abandonar suas crenças quando vai julgar uma causa ou fazer uma abordagem jornalística.

Por outro lado, fatos são fatos. Ou aconteceram ou não aconteceram.

A revista Veja, por exemplo, tem um perfil editorial - dizem - de direita, enquanto a Carta Capital tem um perfil de esquerda. Mesmo que os enfoques dados por cada uma sejam diferentes, são os fatos que importam. Eles aconteceram ou não? E cada um que julgue conforme a sua consciência e capacidade intelectual.

Como, então, não se deixar enganar ou influenciar por notícias falsas ou informações distorcidas?

Fact-checking: checando informações

Quando Bolsonaro disse, em seu discurso, que teve a campanha mais barata da história, estava dizendo a verdade. Por outro lado, quando disse que a população optou, em 2005, pelo “direito à legítima defesa”, mentiu. Sabemos disso graças à checagem de fatos.

O fact-checking põe uma história de frente com algum dado, registro ou pesquisa. Não só em matérias jornalísticas, mas também em falas e discursos de políticos e autoridades, e em informações divulgadas nas mídias sociais. As famosas correntes.

Se um jornalista divulga que algum político recebeu propina, deve indicar de onde ele tirou essa informação. É óbvio que ele deve proteger o sigilo da fonte, mas a informação em si deve ter alguma origem e comprovação.

Recentemente conheci algumas agências que trabalham com o assunto. A Lupa é uma delas. Atuando desde 2015, a agência desmentiu falas de petistas, tucanos e de várias outras autoridades e políticos de outros partidos. É um membro verificado da International Fact-Checking Network (IFCN), que reúne plataformas de checagem em torno do Poynter Institute (EUA), polo de um debate anual sobre desafios e caminhos do jornalismo.

A checagem de fatos não é moleza. Por ser associada ao IFCN, a Lupa precisa seguir cinco mandamentos que dão mais credibilidade à atividade de verificação.

  1. Ela precisa se comprometer com a imparcialidade e equidade. Isso significa que ela deve “ouvir as duas partes”, não se contentar apenas com a confirmação de um lado.

  2. As fontes precisam ser transparentes, ou seja, os leitores devem poder verificar por eles mesmos as informações. Eles precisam ter acesso aos mesmos dados e registros que fundamentaram a informação, ou todos os detalhes, quando não for possível comprometer a segurança da fonte.

  3. Deve haver transparência quanto à fonte de investimento e às pessoas que compõem o quadro de profissionais. É preciso manter a independência editorial, assegurando que o investidor não interfira nas verificações.

  4. A metodologia de verificação deve ser clara e a agência deve encorajar os leitores a pedir checagem de fatos.

  5. A política de alteração e correção deve ser transparente e acessível. Sempre que a agência signatária fizer uma correção ela deve estar visível.

Existe salvação. A gente pode confiar em registros, dados, documentos. Memes não são confiáveis. Notícias de sites focados em click baits não são confiáveis. Nem mesmo o que é reproduzido por nossos políticos de estimação - por mais confiáveis que eles possam ser (ou parecer)- é confiável.

>> Quer checar se algum fato que você viu ou leu é verdadeiro?

14 Comentários

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Curioso utilizar um site de extrema-esquerda que, supostamente, checa as falas do presidente.

Quando Bolsonaro falou que a população escolheu a legítima-defesa no referendo de 2005, ele estava CORRETO.

A população, mesmo com toda a imprensa a favor, no segundo ano de governo do encarcerado Lula, decidiu ser CONTRA A PROIBIÇÃO DA VENDA DE ARMA DE FOGO para o civil comum. Isto é, o desejo da população foi ter a possibilidade de adquirir uma arma para defesa da sua família em casa ou comércio, caso assim desejasse.

É a maior prova atual de que a população desejou manter a capacidade de se defender de agressão injusta, utilizando arma de fogo.

Portanto, Bolsonaro não mentiu.

Att. continuar lendo

Os eleitores foram questionados da seguinte forma: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. A maioria da população (63%) respondeu “não”. Assim sendo, a comercialização desses produtos foi mantida, seguindo as regras estipuladas pelo estatuto em vigor. Já a legítima defesa – entendida como o uso moderado dos “meios necessários” para repelir injusta agressão a si ou a terceiros – é garantida pelo artigo 25 do Código Penal e nunca foi objeto de referendo no Brasil. Procurado, Bolsonaro não respondeu. continuar lendo

Caro Matheus, vamos a uma frase do seu artigo:

“A ideia é fazer a limpa da ideologia “perigosa”, o que vai levar, consequentemente, à substituição pela “ideologia oficial” e “correta”.”

Se eu fosse analisar de maneira estritamente objetiva o seu comentário, a conclusão seria que você cometeu fake news: em nenhum momento Bolsonaro falou que quer “substituir” a “ideologia perigosa” pela “ideologia oficial e correta”. É chato ser checado assim, não é?

Só que a interpretação deste parágrafo tem que se dar no contexto do artigo. A começar pelo próprio parágrafo, onde você afirma que Bolsonaro estaria enquadrando (sem falar como) os críticos do governo, e a todo o texto, a qual você direciona silenciosamente a crítica aos exemplos extraídos da direita. Nisto, a sua afirmação se valida pelo simples fato de ser sua opinião — e não exatamente o que Bolsonaro faz ou irá fazer.

Da mesma maneira, o Bolsonaro, contumaz crítico do estatuto do desarmamento, contextualizando o resultado do referendo com o FATO de que a legislação para aquisição, posse e porte de arma de fogo tornou a possibilidade de uma pessoa obter arma extremamente difícil, opina que a população votou pela legítima defesa — afinal, para ele possuir arma de fogo é forma de se defender dos criminosos. Ele não mentiu: ele emitiu uma opinião, igual você fez no texto. É incorreto afirmar que ele mentiu.

E é isso que está por trás de todo esse assunto: há um direcionamento ideológico, através do patrulhismo da imprensa e das agências de Fact-Checking, em cima das narrativas e opiniões. É uma forma de controle! Tanto o é que as narrativas de esquerda, muita às vezes totalmente dos dados e da realidade empírica, não são submetidas ao mesmo rigor da direita (e agora, crescentemente, dos liberais). O PT, por exemplo, pode dizer que o Bolsonaro reduziu o salário mínimo (http://www.pt.org.br/bolsonaro-estreia-no-governo-com-reducao-no-salário-minimo/), sendo que o mesmo seguiu fielmente a Lei 13.152/15, sem ser checado; fosse o contrário (alguém de direita afirmando que um governo de esquerda reduziu o salário mínimo), rapidamente iriam dizer que é fake news.

Só para terminar, temos que reconhecer que nem tudo em nossa vida é um fato objetivo. Temos crenças, ideologias e filosofias que nos fazem interpretar a realidade da vida.

Abraços! continuar lendo

Matheus, parabéns pelo excelente e didático artigo. Essencial para o debate democrático. continuar lendo

Quem trabalha exatamente com fatos é a ciência. O jornalismo não necessariamente trabalha com fatos. Existe uma ingenuidade brasileira em acreditar que o jornalismo faz um papel altruísta de divulgar fatos, como se não ocorresse interesses privados de não divulgar fatos ou até mesmo mentir sobre a existência de um fato.

A mesma coisa é essa crença na imparcialidade das “agências” de Fact-Checking. Dou um exemplo: durante as eleições, a Folha de São Paulo publicou uma reportagem de que o candidato Jair Bolsonaro havia feito ameaça de morte à ex-esposa. Mesmo provocadas, nenhuma das agências checaram o fato. A ex-esposa do Bolsonaro — ela própria — fez um vídeo desmentindo a fake news da Folha. E porque será que tal fato não foi checado? Talvez o fato dos checadores esconderem seus perfis no Twitter, onde as pessoas foram checar quem eram os que checavam e descobriram perfis diretamente ligados à esquerda, nós apresente o caminho da resposta.

Ah, e mais uma coisa: a Veja tem como editor-chefe o André Petry, que é conhecido pelo seu posicionamento à esquerda. Não à toa, famosos colunistas de direita que escreviam para a Veja não estão mais lá. A linha editorial da Veja deixou de ser de direita desde 2016... continuar lendo

E antes que algum desavisado ache que sou de direita ou bolsominion: meu perfil é mais ligado ao liberalismo social, o que me coloca como centro, e nunca votei no Bolsonaro — nem no segundo turno desta última eleição. continuar lendo

Gosto muito do filme "Watchmen", pois que baseado nos quadrinhos dos anos 80, já questionava: "Quem vigia os vigilantes?"(em tradução livre). Dai, por analogia temos "Quem checa os checadores?". Quem são? Quem lhes paga o salário? (certamente não é um trabalho voluntário). O próprio Twitter e Facebook tem a pomposa missão de serem "imparciais", porém, quando questionados sobre porque determinada hashtag consegue os primeiros lugares e outras, muito mais comentadas sequer aparecem, se saem com a "métrica do interesse". Supostamente, o que seria do interesse do público alvo teria maior destaque. E qual é essa métrica? Ninguém sabe. Não endosso nada nem ninguém. Desconfio de todas as informações com exceção das oficiais. Pesquisas então... Melhor nem comentar. Para as pessoas realmente lúcidas, a desconfiança nunca esteve tão em alta. Infelizmente. continuar lendo

Inclusive, o Facebook contratou a Lupa para checar as fake news na plataforma, com posterior auto-execução de censura pelo Facebook. Resultado? Praticamente todas as páginas relevantes de direita, e algumas liberais, foram derrubadas. As de esquerda, com exceção de uma sem nenhuma relevância, passaram incólumes — mesmo chovendo fake news.

É nítido que a imparcialidade é fake! continuar lendo