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4 de Março de 2021

Você escreve artigos jurídicos para enganar ou para engajar leitores?

Por que para um texto não basta só um bom título?

Matheus Galvão, Advogado
Publicado por Matheus Galvão
ano passado

Das duas uma: ou você - que está lendo - acabou de cair numa armadilha, ou encontrou um pote de ouro no fim do arco-íris.

É sempre assim quando clicamos em uma chamada de artigo na internet. Às vezes somos fisgados por bom título, mas encontramos um conteúdo raso ou ruim; uma armadilha. Já se o texto cumpre o que promete na chamada, temos ouro.

Provavelmente você quer ser a pessoa que entrega (e encontra!) a última opção, até porque esses são sempre os textos mais lidos e comentados, inclusive aqui no Jusbrasil.

Se sua intenção é ter pessoas engajadas com o conteúdo que você produziu com seriedade, deixa eu começar com um conselho...

Tenha malícia, mas não seja maldoso

Eu poderia ter acabado meu texto por aqui? Sim. Colocaria um link para um curso ou um E-book pago e prometeria entregar o conteúdo lá, algo do tipo.

Isso é enganação. É maldade.

Na pressa para ganharem visibilidade e alcance, muitos produtores de conteúdo caem nesse erro. Dão tiro no pé.

O leitor espera valor instantâneo. Por mais curto que um texto possa ser, ele tem potencial para entregar algum valor. Pelo menos algum insight.

Gosto de sistematizar essa percepção de valor em 4 níveis de profundidade.

Nível 1 - Conflito: deixe as pessoas atentas

Pessoas leem porque gostam de conflito.

Ficção ou não, é isso que atrai a atenção. Mas atrair não é suficiente. Quantas vezes você decidiu assistir a um filme por causa do trailer e se decepcionou?

Esse nível de profundidade é atingido com um bom título e uma introdução que despertem uma inquietação, um conflito interno. Uma coceira atrás da orelha.

Foi o que fiz quando escolhi o título desse texto. Minha intenção era deixar você se perguntando:

"Como assim um artigo pode enganar?"

Então, na introdução, eu dei a resposta e emendei um outro conflito, fazendo você se perguntar?

"Como eu sei que meu texto não é uma enganação?"

Atrair a atenção é a parte mais fácil, basta levar pessoas até um dos mais primitivos desejos: curiosidade.

Mas não é o suficiente. Para um leitor ter prazer com o que você escreveu ele precisa, pelo menos, entrar em outro nível.

Ele precisa se identificar.

Nível 2 - Ideias: deixe as pessoas conscientes

Ideia aqui é sinônimo de conclusão, opinião.

Tudo o que eu falei até agora são minhas ideias sobre escrita e produção de conteúdo. São hipóteses razoáveis, deduzidas a partir de alguma experiência ou aprendizado.

Por algum motivo, elas estão ressoando em você. Inconscientemente, você percebeu algum padrão no que eu falei, pois em alguma medida combina com a sua experiência de vida.

Isso acendeu uma luz amarela e te fez pensar:

"Putz, faz sentido".

Textos que atingem esse nível conseguem entrosar o leitor. Eles têm algum “sucesso” porque as pessoas reconheceram o problema e criaram algum tipo de conexão com ele.

Agora que estamos tirando algumas conclusões, vem a pergunta: o que prova que eu estou falando a verdade?

Nível 3 - Dados: deixe as pessoas mais espertas

Daniel Patrick Moynihan, um falecido senador americano, costumava dizer o seguinte:

“Podemos ter nossas próprias opiniões, mas não os nossos próprios fatos”

Esta frase é genial (especialmente em tempos de fake news). Podemos ter nossas ideias e convicções, criarmos nossa própria versão, mas é impossível mudar os fatos.

Opiniões sustentadas por dados e fontes confiáveis garantem mais credibilidade para as nossas hipóteses. E credibilidade é uma impressão que você quer passar ao seu público se deseja convencê-lo da sua qualidade e competência.

Não basta apresentar ideias e opiniões. Você tem que prová-las ou, pelo menos, dar embasamento a elas.

Além disso, quando lemos fatos, acontecimentos e números, traduzimos melhor o problema, conseguimos deixá-lo mais concreto. As pessoas são curiosas e visuais, geralmente dados vão suprir essa necessidade.

Bem, há mais um nível a alcançar se você quer ser mais do que um produtor de conteúdo que nunca mais foi lembrado.

Nível 4 - Solução: deixe as pessoas transformadas e engajadas

Quando eu leio um texto - tenha ele chegado ou não ao nível 3 - quero sentir que, pelo menos, ele me fez pensar sobre um assunto. Que, no mínimo, ele tenha me dado uma informação nova ou me alertado para um problema que eu desconhecia.

Porém, uma transformação mais profunda acontece quando ele me ajuda a enxergar a solução de um problema de forma clara, dando-me o passo a passo.

Mesmo que eu não consiga resolver sozinho, pelo menos saberei a quem - ou que tipo de profissional - recorrer. Esse profissional pode ser o mesmo que escreveu o texto e há uma boa chance de eu considerá-lo como opção.

Em resumo, você pode ser craque em fazer bons títulos e chamadas que atraiam a atenção (nível 1), mas se não chegar ao nível 2 você terá pessoas desapontadas. Elas se sentirão enganadas e frustradas e não confiarão no que você produz.

Você perderá leitores, no fim das contas.

Pense na produção de conteúdo como uma jornada. Assim como as jornadas dos heróis em filmes e livros.

Normalmente um herói ou heroína (quem lê) tem um objetivo, mas enfrenta uma sombra (o problema). Então ele encontra um mentor ou mentora (quem escreve) que vai conduzi-los até a transformação (conhecimento, solução) que ele precisa para receber a recompensa.

Talvez isso dê pano pra manga para outro artigo.

Mas então, você tem agido com um mentor ou como um vendedor de bugigangas?


PS.: Depois de um tempo sem publicar, comecei a receber algumas mensagens perguntando por que nunca mais eu tinha escrito nada. Decidi aparecer de novo.

PS2.: Eu considero esta uma publicação de nível 2. Não coloquei fontes e dados suficientes para embasar o que falei. Gostaria de ter feito, mas foi o que deu. Sinta-se à vontade para fazer perguntas nos comentários. Vou sentir o maior prazer em responder, na medida do possível.

PS3: Vou tentar, sempre que escrever, indicar pelo menos um livro. O primeiro deles é esse aqui. A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Se você gosta de escrever - mesmo que não seja ficção - vale a pena ler e fazer um paralelo entre os desejos humanos e seus arquétipos.

16 Comentários

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Que massa, @galvomatheus! Você conseguiu passar uma ideia que é bem delicada de abordar, geralmente muitos produtores de conteúdo ficam ansiosos e param na "malícia", sem saber que isso tem o efeito contrário ao que buscam. continuar lendo

Perfeito @galvomatheus

Eu fico "doida da vida" quando leio um texto que traz uma discussão bacana, mas que ao final em vez de demonstrar/indicar uma solução, deixa a resposta "no ar" ou leva à propaganda de cursos/livros.

Adorei suas dicas!

Abraço. continuar lendo

É bem frustrante, @pamelafranciner! Obrigado pelo comentário. continuar lendo

Excelente texto, gostei, trouxe clareza e incentivo para os escritores, Parabéns! continuar lendo

Texto ótimo. Não me canso de reclamar aqui dessas coisas. Alguns conteúdos eram tão maldosos, que cheguei mesmo a reportar, pois não me contive. Tem um perfil aí que já nem me dou o trabalho de abrir. Não se dão o trabalho sequer de uma introdução textual. Vão direto para o link de um vídeo. Ora, se eu quisesse assistir vídeos estaria no YouTube e não no JusBrasil. E mais: estou dando deslikes em todos os textos cujo conteúdo não se coaduna com a manchete, porque essa sim é a pior das armadilhas. Eles sabem que muita gente não lê e acredita que o fato narrado numa manchete é verdade e com isso, pode dar um "like" sem nem ao menos ler o conteúdo. Isso supera a noção de mera "maldade". Isso é torpeza! Hoje mesmo já dei um deslike num texto cuja chamada dizia que "advogado preso por orientar cliente a não delatar". Qualquer um de nós tende a dar um belo like. Que absurdo! Um advogado preso por isso? Mas... Lendo a matéria, descobrimos que o que motivou o juiz a prender o profissional não foi isso que o título sugeria. Foi por obstrução de justiça, ou seja, o caso é muito mais complexo. No fim, o tribunal soltou em sede de HC, mas isso não muda o fato de que o título da matéria foi mero ardil para levar o leitor desatento tirar uma conclusão equivocada fundada numa premissa falsa. Não coincidentemente, o perfil que publicou o "artigo" não tem nenhuma pessoa física responsável, a uma primeira vista. Acho que esses perfis devem ser obrigados a apontar um asterisco no início do texto com o nome da pessoa física que escreveu o texto, pois a livre expressão do pensamento é garantia constitucional, mas o anonimato é vedado. Não gosto desses perfis que se escondem atrás de um anonimato fático ao não identificar os verdadeiros autores daquilo que publicam. São esses perfis que usam o JusBrasil como instrumento para fins que parecem ir além da informação e do debate jurídico (que deveria permear todo conteúdo em circulação neste canal). Parabéns @galvomatheus Como sempre seus textos lançam uma luz sobre as trevas! continuar lendo