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14 de Outubro de 2019

Você escreve artigos jurídicos para enganar ou para engajar leitores?

Por que para um texto não basta só um bom título?

Matheus Galvão, Advogado
Publicado por Matheus Galvão
há 10 dias

Das duas uma: ou você - que está lendo - acabou de cair numa armadilha, ou encontrou um pote de ouro no fim do arco-íris.

É sempre assim quando clicamos em uma chamada de artigo na internet. Às vezes somos fisgados por bom título, mas encontramos um conteúdo raso ou ruim; uma armadilha. Já se o texto cumpre o que promete na chamada, temos ouro.

Provavelmente você quer ser a pessoa que entrega (e encontra!) a última opção, até porque esses são sempre os textos mais lidos e comentados, inclusive aqui no Jusbrasil.

Se sua intenção é ter pessoas engajadas com o conteúdo que você produziu com seriedade, deixa eu começar com um conselho...

Tenha malícia, mas não seja maldoso

Eu poderia ter acabado meu texto por aqui? Sim. Colocaria um link para um curso ou um E-book pago e prometeria entregar o conteúdo lá, algo do tipo.

Isso é enganação. É maldade.

Na pressa para ganharem visibilidade e alcance, muitos produtores de conteúdo caem nesse erro. Dão tiro no pé.

O leitor espera valor instantâneo. Por mais curto que um texto possa ser, ele tem potencial para entregar algum valor. Pelo menos algum insight.

Gosto de sistematizar essa percepção de valor em 4 níveis de profundidade.

Nível 1 - Conflito: deixe as pessoas atentas

Pessoas leem porque gostam de conflito.

Ficção ou não, é isso que atrai a atenção. Mas atrair não é suficiente. Quantas vezes você decidiu assistir a um filme por causa do trailer e se decepcionou?

Esse nível de profundidade é atingido com um bom título e uma introdução que despertem uma inquietação, um conflito interno. Uma coceira atrás da orelha.

Foi o que fiz quando escolhi o título desse texto. Minha intenção era deixar você se perguntando:

"Como assim um artigo pode enganar?"

Então, na introdução, eu dei a resposta e emendei um outro conflito, fazendo você se perguntar?

"Como eu sei que meu texto não é uma enganação?"

Atrair a atenção é a parte mais fácil, basta levar pessoas até um dos mais primitivos desejos: curiosidade.

Mas não é o suficiente. Para um leitor ter prazer com o que você escreveu ele precisa, pelo menos, entrar em outro nível.

Ele precisa se identificar.

Nível 2 - Ideias: deixe as pessoas conscientes

Ideia aqui é sinônimo de conclusão, opinião.

Tudo o que eu falei até agora são minhas ideias sobre escrita e produção de conteúdo. São hipóteses razoáveis, deduzidas a partir de alguma experiência ou aprendizado.

Por algum motivo, elas estão ressoando em você. Inconscientemente, você percebeu algum padrão no que eu falei, pois em alguma medida combina com a sua experiência de vida.

Isso acendeu uma luz amarela e te fez pensar:

"Putz, faz sentido".

Textos que atingem esse nível conseguem entrosar o leitor. Eles têm algum “sucesso” porque as pessoas reconheceram o problema e criaram algum tipo de conexão com ele.

Agora que estamos tirando algumas conclusões, vem a pergunta: o que prova que eu estou falando a verdade?

Nível 3 - Dados: deixe as pessoas mais espertas

Daniel Patrick Moynihan, um falecido senador americano, costumava dizer o seguinte:

“Podemos ter nossas próprias opiniões, mas não os nossos próprios fatos”

Esta frase é genial (especialmente em tempos de fake news). Podemos ter nossas ideias e convicções, criarmos nossa própria versão, mas é impossível mudar os fatos.

Opiniões sustentadas por dados e fontes confiáveis garantem mais credibilidade para as nossas hipóteses. E credibilidade é uma impressão que você quer passar ao seu público se deseja convencê-lo da sua qualidade e competência.

Não basta apresentar ideias e opiniões. Você tem que prová-las ou, pelo menos, dar embasamento a elas.

Além disso, quando lemos fatos, acontecimentos e números, traduzimos melhor o problema, conseguimos deixá-lo mais concreto. As pessoas são curiosas e visuais, geralmente dados vão suprir essa necessidade.

Bem, há mais um nível a alcançar se você quer ser mais do que um produtor de conteúdo que nunca mais foi lembrado.

Nível 4 - Solução: deixe as pessoas transformadas e engajadas

Quando eu leio um texto - tenha ele chegado ou não ao nível 3 - quero sentir que, pelo menos, ele me fez pensar sobre um assunto. Que, no mínimo, ele tenha me dado uma informação nova ou me alertado para um problema que eu desconhecia.

Porém, uma transformação mais profunda acontece quando ele me ajuda a enxergar a solução de um problema de forma clara, dando-me o passo a passo.

Mesmo que eu não consiga resolver sozinho, pelo menos saberei a quem - ou que tipo de profissional - recorrer. Esse profissional pode ser o mesmo que escreveu o texto e há uma boa chance de eu considerá-lo como opção.

Em resumo, você pode ser craque em fazer bons títulos e chamadas que atraiam a atenção (nível 1), mas se não chegar ao nível 2 você terá pessoas desapontadas. Elas se sentirão enganadas e frustradas e não confiarão no que você produz.

Você perderá leitores, no fim das contas.

Pense na produção de conteúdo como uma jornada. Assim como as jornadas dos heróis em filmes e livros.

Normalmente um herói ou heroína (quem lê) tem um objetivo, mas enfrenta uma sombra (o problema). Então ele encontra um mentor ou mentora (quem escreve) que vai conduzi-los até a transformação (conhecimento, solução) que ele precisa para receber a recompensa.

Talvez isso dê pano pra manga para outro artigo.

Mas então, você tem agido com um mentor ou como um vendedor de bugigangas?


PS.: Depois de um tempo sem publicar, comecei a receber algumas mensagens perguntando por que nunca mais eu tinha escrito nada. Decidi aparecer de novo.

PS2.: Eu considero esta uma publicação de nível 2. Não coloquei fontes e dados suficientes para embasar o que falei. Gostaria de ter feito, mas foi o que deu. Sinta-se à vontade para fazer perguntas nos comentários. Vou sentir o maior prazer em responder, na medida do possível.

PS3: Vou tentar, sempre que escrever, indicar pelo menos um livro. O primeiro deles é esse aqui. A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Se você gosta de escrever - mesmo que não seja ficção - vale a pena ler e fazer um paralelo entre os desejos humanos e seus arquétipos.

16 Comentários

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Que massa, @galvomatheus! Você conseguiu passar uma ideia que é bem delicada de abordar, geralmente muitos produtores de conteúdo ficam ansiosos e param na "malícia", sem saber que isso tem o efeito contrário ao que buscam. continuar lendo

Perfeito @galvomatheus

Eu fico "doida da vida" quando leio um texto que traz uma discussão bacana, mas que ao final em vez de demonstrar/indicar uma solução, deixa a resposta "no ar" ou leva à propaganda de cursos/livros.

Adorei suas dicas!

Abraço. continuar lendo

É bem frustrante, @pamelafranciner! Obrigado pelo comentário. continuar lendo

Excelente texto, gostei, trouxe clareza e incentivo para os escritores, Parabéns! continuar lendo

Fantástico....; adorei o texto!
...e eu mesma já sentia falta dos teus artigos, até perguntei de você, se havia ficado rico e saído do JusBrasil!! (rsrs)

Seguramente se tivesse ficado rico seguiria escrevendo pois parece fazer o que gosta, coisa que muitos aqui não sabem o que é escrever de verdade (pesquisar, embasar, contextualizar, falar com o leitor, etc)..., bastante gente que posta no Portal prefere repostar ou apenas introduzir assuntos e enviar o leitor para seus blogs ou canal do youtube....; NÃO que eu não faça isso; FAÇO - mas, não descaradamente; primeiro entrego tudo, depois indico meus blogs (todavia, só no fim e com muito óleo de peroba na cara).

Espero que tenha sucesso em teus projetos, mas não suma da vista de teus leitores @galvomatheus
Até breve continuar lendo

Oi, @diariodeconteudojuridico ! Obrigado!

Acho que é possível levar o leitor a conhecer mais sobre você, mas primeiro o ideal é que você conquiste confiança entregando valor.

E sim, pretendo manter uma regularidade de postagens. Pode esperar.

=) continuar lendo

@diariodeconteudojuridico concordo com a senhora, há textos que causam confusão visual de tantos links e redirecionamento. continuar lendo